A JUSTIÇA É CEGA. MAS EU USO ÓCULOS
***
Muitas pessoas fazem piadinha quando digo que sou advogado. Uns dizem que se não existissem advogados o mundo seria melhor. Se não houvesse necessidade, também concordaria. Uns olham com aquele olhar de "pô, esse cara vai se aproveitar de mim".
Fico imaginando o porquê desta fama negativa numa profissão precipuamente destinada a proteger os interesses coletivos, promover a justiça, ajudar os injustiçados. Ao menos sempre foi isso que imaginei que faria, e que continuo imaginando que faço, embora por vezes imagine em fazer como naquele seriado em que o juiz (Nicholas Marshal) perseguia os bandidos que não conseguia punir, em razão de alguma lacuna na lei da qual se aproveitavam, e fazia justiça com as próprias mãos, sempre à noite e com fundo musical sombrio.
Não sei se pelo sangue árabe que corre em minhas veias, às vezes tenho vontade de visitar algumas dessas pessoas à noite - tal qual Nicholas.
Vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Sei que soa meio louco, radical. Mas às vezes a indignação me abalroa tão fortemente que tenho vontade de estrangular estes bandidos de terno e gravata.
Isto ocorre geralmente quando me deparo com a ineficiência da lei, não por sua letra, mas pelas condutas humanas que se sobrepõem e ela. Estes pilantras de Hugo Boss geralmente estão envolvidos com tráfico de drogas, prostituição infantil, desvio de verbas públicas e por aí vai, e acabam recebendo medalhas de honra ao mérito na câmara de vereadores de minha cidade. Meu Deus!! Isso me tira o sono. Será que tem algo de errado comigo? Alguma síndrome adolescente de querer fazer o bem? de querer berrar? Reflito sobre tudo isso... até para me demover de fazer alguma besteira.
Estamos próximos da eleição para escolha do presidente da OAB de minha cidade (uma subseção). Existem duas chapas. Uma é capitaneada por um advogado aparentemente honesto, o qual me parece ter as melhores intenções, de ser o mais moralmente correto. A outra chapa é capitaneada por um advogado sabidamente desonesto, corrupto, daqueles que falsificam documentos. Mais nojento que o shrek toda vida. Me desculpe este pela comparação.
E este pilantra está fazendo uma campanha maciça para eleger-se. Fez adesivos gigantes e espalhou-os pela cidade. Possui apoio de várias pessoas do comércio local, além do apoio de vários advogados que lhe dão tapinhas nos ombros pelos corredores do fórum local. Lá vem minha síndrome Nicholas novamente. Quando digo que este cara é um pilantra não é mania de perseguição minha, não, até porque meu signo perfeccionista me faz analisar todas as possibilidades e saídas possíveis. O fato é que o cara é um pilantrão mesmo que, aliás, se parece muito muito com o Severino Cavalcante! Imagine aí!
Então, possuído pelo espirito de Nicholas, fui conversar com minha tia sobre minhas revoltas e idéias incendiárias. Minha tia, com mais sangue árabe ainda do que eu nas veias , sempre foi uma ferrenha defensora dos fracos e oprimidos, avessa à injustiças. Como foi bom ouví-la!!. A experiência adquirida com os anos de vida valem mais do que ouro, creio. Ela me disse "A cesar o que é de Cesar", demovendo-me de minhas intenções noturnas de fazer "justiça". Me disse ainda, que para mudar as coisas ao meu redor eu não deveria me valer de atos terroristas (não que eu fosse matar ninguém) mas que deveria me tornar uma pessoa de poder, com uma caneta afiada, socialmente relevante e importante. Aí então poderia punir os pilantras, ajudar àquelas pessoas tão carentes de justiça. Suas palavras me consolaram. Tiraram o peso do mundo de meus ombros. Por enquanto.
A Cesar o que é de Cesar.
QUE DIFERENÇA FAREMOS?
***
O que nos incita a ir adiante? ir além, fazer alguma diferença? O que? Nossas vontades, amores, paixões, deleites, facilmente nos impulsionam. Claro! Mas será nossa indignação e asco, por pessoas e fatos, capaz de nos impelir a tomarmos alguma(s) atitude(s) em prol da coletividade? Em prol da moralidade? Capaz de fazer com que nos levantemos do sofá e façamos alguma coisa por nosso país, por nossa cidade, por nossa rua, nossa família, pelo maldito pivete ou pela maldita puta banditizados por nós?
Será? E se sim, será que Ele nos ajudará nessa luta com a qual começamos a flertar? Será? Será que no ingresso e no percurso da senda desta luta, nobre luta, pelos valores éticos e morais haverá Deus de ajudar-nos? Tomara!
O que buscamos ao bater à porta do vizinho corrupto que nos avilta com seu banquete iníquo? Por certo não é uma parte da herança maldita que ele acumula. Pelo menos não eu.
Então o que? O que nos move na busca pela justiça, pela ética e correção? O que nos faz nos indignarmos diante de tanta sacanagem?
Será o desabafo, o vomitar das indignações que sentimos nalma, nossa recompensa e, finalmente, o que nos incita a lutar?
Por que não partilhar do "tesouro" iníquo do vizinho? Por que não? POR OPÇÃO!! POR FÉ!! POR ESPERANÇA, PORRA!!
Por ouvir uma voz - eu ouço, você também, quero crer - quase silenciosa que não nos abandona nunca, a qual nos impele, coercitivamente, a lutar. Insanamente nos faz persistir, nos faz parecer, por vezes, sonhador, meigo, bobo. Mas verdadeiro, útil, bravo. Por vezes nos faz sentirmos sós no campo de uma batalha que parece perdida, que se apresenta desequilibrada a favor do inimigo. Inimigo? Qual inimigo??
Qual a medida para classificarmos aquele cara, ou aquela mulher ali, de inimigo? A inércia os torna muas? Posicionar-se em cima do muro os torna maus? E se o cara, ou aquela mulher ali, se coloca disposto a compartilhar do banquete dos ímpios, dos pilantras, isso o tornaria mau?
Ou será nosso inimigo uma mera insatisfação pessoal diante dos acontecimentos cotidianos que ocorrem a despeito de nossas vontades? Creio que isso também.
Mas também avilta, me revolta e incomoda o prejuízo alheio. O engano empírico, científico, maquiavelicamente exercido sobre o menos letrado, sobre o socialmente excluído, sobre o neguinho sem dente, sobre o velho doente, sobre a cadela gestante, a fim de roubar-lhes o pouco que têm. Para furtar-lhes o pouco que sonham, e vender-lhes a preço de mercado esperanças gratuitas.
Serão estes vendedores e saqueadores meus inimigos?
Puta que pariu!!! Meus heróis morreram de overdose. Puta que pariu!! Meus inimigos estão no poder. Puta que pariu!!! Ideologia eu quero uma para viver.
Nao quero duas nem três. Uma me basta. A ideologia da divisão igualitária do pão me bastaria. Claro que me refiro e diversos pães, e diversas padarias. Mas a divisão correta e igualitaria do pão me seria satisfatório.
Se os senhores que fazem as leis (vereadores, deputados etc) e os que a administram (prefeitos, governadores e o Presidente) se contentassem com sua fatia - sempre doce, coberta de granulado, cereja e mel - e respeitassem a fatia dos demais, estaria eu satisfeito.
Todavia, os glutões sempre comem demais, e nunca se satisfazem. Comem a minha fatia. A sua. Na do faminto, dão uma bela mordida.
Se os advogados - precipuamente destinados a zelar pelo controle do apetite dos glutões acima, bem como pela divisão de nossas refeições - se satisfizessem com sua fatia, estaria eu satisfeito.
Mas, lamentavelmete, algum deus grego, ou brasileiro, ou ainda americano ou europeu, parece ter se tornado o novo messias, o novo bambambam, o novo malandro da Lapa. Um deus bem gordo, que se lambuza todo em seu farto banquete. A figura que permeia o papinho cool dos happy hours das grandes metrópoles.
Todo mundo parece faminto agora.
Acho que vou colocar fogo na prefeitura. Quem sabe escreverei livros de protesto. Talvez torture, com meus prórios punhos, os glutões, mantendo-os a pão e água.
Preciso fazer alguma coisa contra toda esta covardia. Preciso fazer alguma coisa contra tanta hiprocrisia. Que carnificina. Que sujeira.
Hoje, voltei na farmacia para pagar uma divida de dez centavos que faltaram na compra de ontem - promessa é dívida! A cara do farmecêutico foi espanto. Não sei se pelo valor da dívida ou se pelo cumprimento da promessa. Acho que por ambos.