Cidadão Zé
terça-feira, outubro 31, 2006
  A JUSTIÇA É CEGA. MAS EU USO ÓCULOS
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Muitas pessoas fazem piadinha quando digo que sou advogado. Uns dizem que se não existissem advogados o mundo seria melhor. Se não houvesse necessidade, também concordaria. Uns olham com aquele olhar de "pô, esse cara vai se aproveitar de mim".
Fico imaginando o porquê desta fama negativa numa profissão precipuamente destinada a proteger os interesses coletivos, promover a justiça, ajudar os injustiçados. Ao menos sempre foi isso que imaginei que faria, e que continuo imaginando que faço, embora por vezes imagine em fazer como naquele seriado em que o juiz (Nicholas Marshal) perseguia os bandidos que não conseguia punir, em razão de alguma lacuna na lei da qual se aproveitavam, e fazia justiça com as próprias mãos, sempre à noite e com fundo musical sombrio.
Não sei se pelo sangue árabe que corre em minhas veias, às vezes tenho vontade de visitar algumas dessas pessoas à noite - tal qual Nicholas.
Vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Sei que soa meio louco, radical. Mas às vezes a indignação me abalroa tão fortemente que tenho vontade de estrangular estes bandidos de terno e gravata.
Isto ocorre geralmente quando me deparo com a ineficiência da lei, não por sua letra, mas pelas condutas humanas que se sobrepõem e ela. Estes pilantras de Hugo Boss geralmente estão envolvidos com tráfico de drogas, prostituição infantil, desvio de verbas públicas e por aí vai, e acabam recebendo medalhas de honra ao mérito na câmara de vereadores de minha cidade. Meu Deus!! Isso me tira o sono. Será que tem algo de errado comigo? Alguma síndrome adolescente de querer fazer o bem? de querer berrar? Reflito sobre tudo isso... até para me demover de fazer alguma besteira.
Estamos próximos da eleição para escolha do presidente da OAB de minha cidade (uma subseção). Existem duas chapas. Uma é capitaneada por um advogado aparentemente honesto, o qual me parece ter as melhores intenções, de ser o mais moralmente correto. A outra chapa é capitaneada por um advogado sabidamente desonesto, corrupto, daqueles que falsificam documentos. Mais nojento que o shrek toda vida. Me desculpe este pela comparação.
E este pilantra está fazendo uma campanha maciça para eleger-se. Fez adesivos gigantes e espalhou-os pela cidade. Possui apoio de várias pessoas do comércio local, além do apoio de vários advogados que lhe dão tapinhas nos ombros pelos corredores do fórum local. Lá vem minha síndrome Nicholas novamente. Quando digo que este cara é um pilantra não é mania de perseguição minha, não, até porque meu signo perfeccionista me faz analisar todas as possibilidades e saídas possíveis. O fato é que o cara é um pilantrão mesmo que, aliás, se parece muito muito com o Severino Cavalcante! Imagine aí!
Então, possuído pelo espirito de Nicholas, fui conversar com minha tia sobre minhas revoltas e idéias incendiárias. Minha tia, com mais sangue árabe ainda do que eu nas veias , sempre foi uma ferrenha defensora dos fracos e oprimidos, avessa à injustiças. Como foi bom ouví-la!!. A experiência adquirida com os anos de vida valem mais do que ouro, creio. Ela me disse "A cesar o que é de Cesar", demovendo-me de minhas intenções noturnas de fazer "justiça". Me disse ainda, que para mudar as coisas ao meu redor eu não deveria me valer de atos terroristas (não que eu fosse matar ninguém) mas que deveria me tornar uma pessoa de poder, com uma caneta afiada, socialmente relevante e importante. Aí então poderia punir os pilantras, ajudar àquelas pessoas tão carentes de justiça. Suas palavras me consolaram. Tiraram o peso do mundo de meus ombros. Por enquanto.
A Cesar o que é de Cesar.
 
Comments:
Gostei muito do texto..muito mesmo! As indignações tem que ser expostas, fingir que nada acontece é a pior coisa...nos faz cumplices!
 
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EMBORA EDUCADO. EMBORA ADVOGADO. EMBORA BEM-CASADO. EMBORA BEM-NASCIDO. EMBORA ATÉ BONITO. ZÉ CONTINUA INVISÍVEL. ZÉ ESTÁ QUASE MUDO EMBORA NÃO ESTEJA SURDO. ZÉ DESEJA ABRIR PORTAS.

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