FALAR MATA
Difícil acreditar que as palavras possuem um poder tão forte quanto às vezes imagino que possuem. É dificil acreditar que possuímos um poder tão forte assim. Na boca. Na língua. Claro que ele depende do gatilho cerebral, mas tudo depende do seu disparo mesmo.
Ontem por exemplo, em uma audiência, a certa altura, meu cliente tentou argumentar com o advogado da parte adversa. Este prontamente e de forma agressiva, crendo que meu cliente o estava ameaçando, interrompeu-o, não lhe dando margem para continuar argumentando. Cheio de latim na lingua fez meu cliente desistir de prosseguir em seus ingênuos e bem intencionados dizeres. Senti a iminente necessidade de intervir por meu cliente, e o fiz. Disse algo como "O douto colega interpretou mal meu cliente, o mesmo apenas se encontra indignado por presenciar tantas mentiras proferidas pela colega o por seu cliente nos autos do processo e, por isso, tenta desmascarar esse teatro". Disse isto pois era notória a má fé de ambos. Do advogado e do cliente dele que processavam meu cliente, um comerciante que passa por inumeras dificuldades para manter sua pequena loja, a fim de arranjar algum trocado.
Uma audiência nojenta. Um teatro dos vampiros. O advogado adverso instruindo seu cliente, que não sabia nem o que dizer. E eu ali, doido para soltar o verbo. Mas a tática contra os iniquos é aguardar, aguardar, silenciosamente aguardar até fulminá-los letalmente, e não ficar de bate boca, como eles esperam que fiquemos para pescar argumentos para sobreviver.
Bem, mas quando disse o acima narrado na audiência todos me olharam com cara de espanto. Todos sabiam das mentiras que ali estavam sendo contadas, mas as regras de etiqueta impedem, quase sempre, que os advogados sejam mais incisivos, diretos uns com os outros. E, claro, em muitas das vezes falta aos advogados vontade, coragem de lutar mais bravamente em busca da verdade, posto que os interesses são dos clientes e não seus.
Mas fico flertando alegremente com o poder das palavras que começo a descubrir. Na audiência de ontem o efeito das palavras foi como de uma nepalm, devastador. Partida quase encerrada. O golpe final foi obrigatoriamente adiado para um futuro mais ou menos próximo, diante da lentidão da justiça pátria.
O poder dos dizeres não deve ser confundindo com agressividade, que, aliás, é imperdoável. Tampouco com ingenuidade, senão não se sustenta, não contra argumenta, não vislumbra uma finalidade. Então, de forma serena e objetiva, os dizeres podem ser fatais. Que delícia! Claro que é necessário coragem, o tal gatilho cerebral. Sem seu disparo a boca não abre, só treme.
Esse poder está dentro de cada um nós. Às vezes adormecido por falta de estimulos, paixões. Às vezes por comodismo. Às vezes por falta de coragem. Mas existe. Ele é facultado a qualquer um. O teatro, teatrinho, que a vida social estabeleceu não oferta papéis aos verbalmente letais. Aos verbalmente pertinentes, relevantes. Não de graça. Eles lá não são bem vindos. Não são convidados. Mas quando entram no palco geralmente se tornam personagens principais. Naturalmente excedem os papeis de figurantes. Até porque destes o palco está cheio e cheio.
Então sejamos verbalmente ativos, é o mínimo, em nossa rede social, mal tecida e mal cuidada, que podemos fazer para modificá-la. Falando a gente se entende, falando a gente faz diferente.